comerciais

Novembro 28, 2009

Cresci em um país pobre, e com sérias dificuldades educacionais. Isso explica algumas circunstâncias de minha infância, embora não recubra certas preferências e deficiências de minha personalidade. Esta longa introdução serve para justificar o fato de que, embora sempre me tenha tido por artista (o que talvez tenha mudado nos últimos anos) e pensador, poluí uma parte significativa de minha vida com asneiras das mais diversas, como a televisão.

E a televisão, neste país pobre, era e é privatizada – uma péssima decisão. Assim, ao contrário de supostos outros lugares onde a televisão é estatal, e provavelmente compõe-se de programas, a televisão aqui é composta por uma sequência de anúncios publicitários recheados com algum fait-divers, cada vez mais imbecilizado. O cúmulo da mídia: voltar-se sobre si mesma, deixando de ser um canal, um meio, para se tornar um fetiche.

Mas, enfim, os anúncios, conhecidos popularmente como comerciais: sua recorrência, e o trabalho apurado que envolve sua produção, tornam-nos mais marcantes que os próprios programas. Minhas memórias da televisão se dividem entre desenhos, filmes, programas da madrugada (vistos com certa cumplicidade dos outros, desde a infância) e comerciais. Alguns enredos de reclames eram e são francamente superiores aos programas – especialmente quando estes programas são certas “atrações” pretensamente cômicas e que envolvem a repetição nauseante das mesmas situações esdrúxulas, semanalmente.

(Repetições nos comerciais causam, igualmente, irritação. Talvez os publicitários precisem pensar em estratégias de redução do tempo em que uma campanha fica veiculada: o que implicaria mais gastos, se fosse mantido o padrão de produção, mas há de se pensar uma escala que reduza estes gastos… As técnicas de publicidade ainda parecem muito concentradas em esquemas pré-definidos, variando-se poucos elementos.)

Infelizmente há uma decaída no padrão dos roteiros e na presença dos personagens, em anúncios televisivos do presente. Pode-se acompanhar uma sequência inteira de moçoilas sorrindo e fazendo graças (sem serem atrizes, ex-modelos burras improvisam como podem uma expressão que jamais parece genuína); casais jovens e ricos tem conversas recheadas de frases do senso comum; um bar estranho é exibido, no qual todas as mesas se conhecem e aqueles que bebem são só os felizes – quando é que você já foi num bar e não viu alguém bebendo por tristeza e desolação? Ou comerciais de bancos que parecem mais vender um estilo de vida, como se o banco fosse atributo fundamental da personalidade.

O politicamente correto, o femismo (equivalente venusiano do machismo), a estética da máquina eficiente, estes são alguns dos ingredientes que tornaram tão infeliz esta mudança na publicidade entre as décadas de 1990 e 2000.

Salva-se uma parte pequena dos comerciais, como os de papel higiênico: a excreção ainda é cômica, e não ‘chic’, ’style’ ou ‘moderna’, para nossa sorte!


bolsa de valores

Novembro 27, 2009

Ultimamente tenho tido essa vontade maluca de começar a comprar ações. Meu único investimento real, graças a meus parcos recursos, é uma poupança vinculada à minha conta corrente. Mas não rende nada, o juros da poupança é de dar dó: dependendo do dia (aniversário do depósito), poucos centavos são contabilizados.

Acho que já acumulei uma fortuna suficiente, na poupança, para aventar um investimento na bolsa. O banco oferece algumas opções chamadas “de risco” – mas essa pequena locução deixa o investimento pouco atraente.

Além disso, acho que a bolsa de valores é o local por excelência de pessoas tão inteligentes como eu pretendo-me ser. Política? Universidade? Empresa? Se você realmente tem talento para demonstrar, vai mesmo é pra bolsa. (Se não tem, vai pro saco.)

Segundo a Wikipedia, “a bolsa deve preservar elevados padrões éticos de negociação, divulgando – com rapidez, amplitude e detalhes – as operações executadas.” Isso tranquiliza, saber do elevado padrão ético da bolsa. Percebe-se claramente que trata-se de uma ética sem pessoas, uma ética de objetos: as ações.

Aliás, as ações da bolsa são em verdade inações: camuflam a total e absoluta ausência de atividade, ainda mais nas bolsas eletrônicas, que exigem apenas a decisão e a opção, mas pouca ação. Os papéis chamado de ação são também cauções. Mas não agem, a não ser de uma maneira bem metafórica; a ação está toda concentrada em algum outro lugar, bem longe da bolsa.

E é deste outro lugar que obviamente tento escapar. Quem não tem ações, acaba tendo que praticar atos, muito frequentemente contra a própria vontade e em detrimento de sua liberdade pessoal. É um caminho perigoso e reservado aos iniciados, mas sem dúvida ter ações permite um controle melhor sobre a própria vida.


o arauto

Novembro 24, 2009

É uma poderosa figura, embora às vezes seja usada de maneira abusiva.

arauto medievalO arauto era, na Idade Média, o mensageiro oficial. Uma antiga profissão que pressupunha a coragem de carregar mensagens entre exércitos, em tempos nos quais não havia convenções de direitos humanos. Precursor da diplomacia, lhe era garantida alguma imunidade, deve-se lembrar. Mais do que mensagens de guerra, os arautos se especializavam em protocolos de comunicação. Gritar era uma atribuição dos arautos, e gritar de forma agradável, se possível, e espalhando as novas que ninguém ainda poderia ter sabido.

Oarauto anunciava. o arauto antecipava-se.

Muitos jornais do mundo anglo-saxão ainda carregam em parte de seu nome o vocábulo “herald”, que significa arauto. O sentido da mensagem também é preconcebido, é de se esperar que o arauto traga boas novas.

Contemporaneamente, arauto passou a significar uma gama mais ampla de mensageiros, especialmente aqueles que desencadeam eventos. Assim usei o conceito de arauto em uma crítica sobre “Os imperdoáveis” (Clint Eastwood, 1992), embora com algum receio de que estivesse simplificando o papel do pistoleiro Schofield Kid. Minha inspiração era claramente Joseph Campbell, que fala sobre o arauto em “O herói de mil faces”, enfeixando uma série de personagens comuns em mitos e lendas como arautos: sua posição na história marca o início de eventos extraordinários. Leio esta crítica sobre “Teorema” (Pasolini, 1968), no qual o autor fala também um personagem deflagrador, mas sem mencionar a palavra arauto. Reparar que André Setaro chega a mencionar outro western (“Os brutos também amam”) no qual aparece um arauto!

Enfim, a literatura convencional (escrita) é cheia de exemplos de arautos, porque é fascinação ter ali uma pessoa mágica que promove o ponto de virada na história. Agora me lembro do Gordo em “Jubiabá”, de Jorge Amado; e de Joachim em “A montanha mágica”.

Mas qual o papel do arauto na era da comunicação total(izante)? Não se vê muito mais arautos, as histórias contemporâneas parecem já começar sem anunciadores. Nada de melancólica nostalgia pelo arauto. O que acontece é mais simples do que uma perda, um desencanto qualquer. É a substituição do mensageiro pela mensagem, dissociada de materialidade e de subjetividade.

A mensagem anuncia, a mensagem antecipa-se (ao próprio evento, muitas vezes: crônica de uma morte anunciada).

Acontece é que os protocolos já se fazem conhecer por todos. Os símbolos são muito decifráveis para exigir qualquer intermediação. Todos são mais espertos, o que de modo nenhum significa que tenham maior inteligência. Apenas aconteceu que a necessidade de conhecer tudo levou o homem médio a reconhecer tudo. O prefixo é enganoso: reconhecer não significa conhecer de novo, mas apenas identificar ou distinguir, enquanto que conhecer significa ordenar dentro de um sistema lógico.

A função dos arautos era reconhecer, mediar símbolos – no que hoje são substituídos por meios técnicos. A disseminação da escrita, e tudo mais que dela é derivado – muitos dos meios de comunicação modernos – levou a democratização do simbólico. O papel do arauto é cada vez mais restrito, transmitindo signos que não se registram. Mas como o registro é condição fundamental de valorização de fatos ou opiniões, o conhecimento portado pelos arautos tende mais e mais aos domínios excluídos da existência: a morte, a consciência de si, a reflexão, o sagrado.

Há também uma tentativa forçada de proclamação de mensageiros especiais, em momentos inadequados, ou lugares inadequados. Se por um lado há ausência de arautos, por outro há proliferação de pseudo-arautos. Certa teoria social vive há mais de 50 anos de reinvenções da roda, de teorias que colocam supostamente tudo abaixo. Desnecessário dizer que seus pseudo-arautos não celebram o nome por mais de uma dúzia de anos. Mas a sede de originalidade é outro problema…

Caberia todo um estudo sobre o surgimento, evolução e decadência do arauto na sociedade ocidental. Um estudo que seria, ele próprio, uma mensagem de como lida-se com mensagens…


o país vizinho (nachbarland)

Novembro 19, 2009

a palavra absurda que parece no título deste post é o substantivo alemão, muito específico (redundância!), para país vizinho. nachbarland (ou ainda nachbarstaat): país próximo (nach, próximo/nachbar, vizinho + land, lugar). não é preciso perguntar porque os alemães criaram esta palavra – em algum momento parece que eles criaram palavras para qualquer coisa, compondo termos mais gerais.

mas a categoria país vizinho não perde com isso sua utilidade maior, descrever um tipo de relação fundamental e oficial de ódio e rejeição, e sincera esperança de desgraça alheia. contra toda a boa vontade dos internacionalistas, os países vizinhos geralmente se odeiam, por razões inexplicáveis. há pelo menos um país vizinho a se invejar, outro a tomar como modelo de miséria e degeneração, outro a ser visto como pátria de efeminados, etc.

o exercício dos preconceitos fica mais fácil quando são aplicados ao estrangeiro. claro que as dimensões de um país permitem mesmo colocar compatriotas em um nível de sub-humanidade qualquer: quem cresceu em são paulo sabe bem o que é isso, todos os demais estados deste país recebem seu estereótipo, havendo talvez uma tolerância para com meia dúzia de ‘províncias’.

há a possibilidade de existir mesmo uma cadeia de posições em que os países se colocam, e como na cena do preconceito mútuo em do the right thing (spike lee, 1984), cada grupo olha com desdém o outro, até que aparece um país que não tem forças para diminuir qualquer outro – no caso da américa do sul, suspeito que essa posição seja ocupada por um vizinho ao brasil que, graças a uma manobra inglesa, despencou dos sonhos de grandeza para a miséria absoluta.

para o brasil, o nachbarland clássico é a argentina, que merce restrições muito além do futebol. os argentinos não sabem se comportar, é o que dizem. são “metidos a europeus”. são sujos e mal-educados, principalmente quando se metem a turistas das praias brasileiras. afiam sua política nacional ao peronismo, ingênuos… (que dizer do getulismo, do nosso recorrente ‘pai dos pobres’, bolsa-família, pac, petróleo e etc?) enfim, há um desprezo absoluto pelo que fica além das cataratas do iguaçú.

quando vemos notícias de como os argentinos supostamente adoram os brasileiros, ficamos desconfiados e atribuimos sentimentos equivocados a eles. custa-nos a crer que eles de fato possam ser menos maldosos do que nós. mas desconfio que seu nachbarland seja o chile.

a argentina é nosso méxico, necessário, mas perturbador. o uruguai é nosso canadá: país esquisito, sem justificativa, deveria continuar sendo província cisplatina… e eu quase estive no uruguai durante todo o primeiro semestre desse ano, em intercâmbio; o médico de minha esposa, dos mais simpáticos, é uruguaio. teria eu aprendido alguma coisa significativa sobre sua cultura? não, continuo achando o uruguai um mistério.

países vizinhos, enfim. fronteiras políticas que são carregadas de significações e sinais diferenciais, nesse modelo esquisito de civilização que decidimos adotar e glorificar.


universidade e projeto

Novembro 18, 2009

quem participa do meio universitário, ainda que a contragosto (ou seja, quase a totalidade das pessoas), percebe imediatamente características intrínsecas da “cultura universitária”; a simples observação destes comportamentos, entretanto, não diz nada até que a história e os condicionantes sociais da academia sejam iluminados por uma investigação sem preconceitos, e não-orientada para fins ideológicos.

sabe-se que a universidade sempre serviu como signo de distinção das elites, um marco da centralização do conhecimento (que desde hobbes e maquiavel é sinônimo de poder) nas mãos daqueles escolhidos e iniciados.

mas como lidar com uma sociedade de múltiplas elites, que buscam os fundamentos de sua “superioridade” nas qualificações financeiras ou familares/nobiliárquicas? a noção de projeto (de vida? ou algo além de uma vida individual…) vem a calhar neste momento. porque no fim, a universidade fornece, mais do que as técnicas, uma base de sustentação, um framework para a realização destes projetos diversos.

é por isso, e não por qualquer profissão de fé no conhecimento puro e simples, que a universidade contemporânea é laica e autárquica. essas características permitem que interesses conflitantes se acomodem, sem terem a força suficiente para dilapidar a pesquisa em si. contribui para esse desinteresse em confrontar interesses o ritmo crescentemente rápido da pesquisa contemporânea, que obriga o sujeito a despender todas as suas forças em uma tarefa exclusiva; sobre pouco tempo para a defesa de qualquer idéia política, e as garantias de independência em pesquisa são vitais exatamente no momento em que coíbem o desperdício de tempo com questões de orientação mais ampla da universidade.

como diz bruno latour, a modernidade caracteriza-se por esse trabalho um tanto esquisito de tradução e purificação: de um lado a produção de híbridos, de outro a separação em quadrantes ou esferas específicas de entendimento e ação social. (minha leitura é obviamente weberiana, o que talvez desagradaria o próprio latour…)

a orientação não existe para o social, mas também não existe para o mercado, ou para qualquer outro feitiço moderno. a universidade é o framework para o que for criado ali. é claro que o mercado não financiará algo que não tem necessidade no mercado, do mesmo jeito que o “pensamento social” rejeita as manobras estritamente mercadológicas – mas os dois permanecem convivendo sem uma solução imaginável para o conflito.

a não ser, é claro, destruir o padrão de universidade e criar algo do novo. mas esse é um processo difícil. “transformar a universidade” equivale ao projeto um tanto fracassado da wikipédia: pega-se um conceito ultrapassado (enciclopédia), dá-se uma forma moderna, com apoio das técnicas (materiais e imateriais) contemporâneas, mas continua-se refém dos problemas clássicos. no caso da wikipédia: o mito da imparcialidade, da “verdade”, da isenção; prefiro um artigo científico ou mesmo de revista, no qual eu possa imaginar claramente um autor ou grupo de autores com uma finalidade ideológica. no caso da universidade: fechar-se em um projeto único, perdendo as possibilidades inesperadas que são a própria essência do saber acadêmico.


notinhas:

 

  1. a comparação de uma universidade a uma enciclopédia não é minha, é de um conhecido professor e filósofo, em entrevista ao estadão por esses dias. deu o que pensar, a comparação.
  2. esse texto surgiu, na verdade, como subproduto de uma reflexão sobre festivais e eventos comemorativos em universidades. coisa que vem sendo coibida, e talvez apropriadamente. no caso de minha alma mater, polêmico, há pontos importantes do lado dos que advogam a proibição, e um discurso muito sem fundamento do lado dos que defendem a continuidade. tudo passa pelos discursos dos que defendem um uso da universidade com base em seus projetos, que obviamente não são totais. o totalitarismo está muito próximo às vezes de quem mais alega abominá-lo. se existem pessoas incomodadas, há uma razão para isso, e eliminá-las das decisões é um procedimento bastante triste. em alguns dias, espero escrever algo a respeito disso…

extradição

Novembro 14, 2009

Hoje me fez recordar Jean Baudrillard, “À sombra das maiorias silenciosas”:

Vejamos um exemplo entre mil desse menosprezo pelo sentido, folclore das passividades silenciosas. Na noite da extradição de Klaus Croissant, a televisão transmitia um jogo de futebol em que a França disputava sua classificação para a Copa do Mundo. Algumas centenas de pessoas se manifestam diante da Santé, alguns advogados correm na noite, vinte milhões de pessoas passam sua noite diante da televisão. (p. 9)

Este livro de Baudrillard me é muito querido, porque parece ser o mais ousado entre todos os seus ousados textos. A sequência deste episódio, relatado bem no começo do livro, não é um endosso ao paternalismo típico da intelectualidade européia (e brasileira), ao acusar os controles e agentes externos pela opção popular em favor do futebol. Às massas não pode ser negada a indiferença, percebeu Baudrillard. Elas até sabem que se desenrola este drama, mas optaram por si mesmas em não dar crédito às tramóias do Estado, em uma forma suprema de ironia que deixa os governos perdidos e gera uma instabilidade difícil de explicar no sistema mundial de trocas.

Talvez minhas conclusões estejam adiantas, recomendo a qualquer um que queira encontrar uma crítica mais convincente às esquizofrências circunstâncias pós-modernas: leia o livro.

Mas eu me lembrei de tudo porque hoje foi dia de jogo de futebol de seleções, às 15h da tarde – horário da preguiça, nada mais perfeito do que um jogo de futebol chato e inútil pra completar duas horas de um sábado perdido. E além do jogo, atualmente o Brasil vê esse melodrama do julgamento (no STF, suprema corte brasileira) quanto ao pedido de extradição do terrorista italiano Cesare Battisti. Anteriormente ele havia conseguido refúgio como asilado político no Brasil, mas no nosso complicado sistema de poderes alguém decidiu rever o caso, e lá vamos nós pra mais um show-gamento do STF (os anteriores: bebês sem cérebro, transgênicos, etc).

O pleito está empatado em 4 a 4, mas o voto de Minerva do presidente do STF deve ser favorável à extradição. Em desespero, Battisti iniciou uma greve de fome, rapidamente respondida pelo presidente da associação de vítimas de Cesare Battisti (na Itália) com outra greve de fome. A resposta, mais do que promover qualquer interesse público, acabou por tornar cômicos ambos os protestos. Tentativas forçadas de espetacularizar o caso e fugir da discussão real, estas atitudes não são consequentes.

Battisti deve se ressentir de não encontrar um apoio intelectual e político do mesmo nível que era possível quando a esquerda ainda não havia sido demolida. Klaus Croissant contou, entre seus defensores públicos, com Jean-Paul Sartre e Gilles Deleuze. Para Battisti, só uma porção de interesseiros, já calculando os efeitos de sua vida e morte com base nas eleições 2010. Um par de décadas depois da falência das idéias, o julgamento de Battisti converte-se em uma triste metáfora da ausência de ideologias.

Ninguém toma uma posição clara e ao mesmo tempo bem estabelecida. Ninguém vê o absurdo de um crime comum levar a extradição de uma pessoa condenada por crime político. O crime comum – crime bastante grave por sinal, o assassinato (mas faria alguma diferença?) – é mais sensacional e espetacular do que as velhas e enfadonhas discussões sociológicas. Não há desculpas para a defesa do comunismo, portanto é melhor nem tocar no assunto. É constrangedor ver um antigo comunista, o presidente brasileiro, desconselhar a greve de fome: “faz mal, não faz bem”. É isso que ele tem a dizer, nesse momento tão crítico…

Seu retorno à Itália significa, provavelmente, sua execução. Mas ninguém, a não ser o próprio Battisti, se preocupa com isso. Sua morte ou seu asilo alimentarão a máquina de produção de fatos, que há muito substituiu a produção livre de idéias e acontecimentos. Estamos além do fim, imersos no simulacro. O que acontecer me é indiferente, como é indiferente ao mundo o que eu penso.

Mas afinal, o Brasil venceu a Inglaterra por 1 a 0, e teremos mais assuntos nesta semana do que na anterior.


a abstração do número

Outubro 7, 2009

na dúvida entre usar dados numéricos ou não em um trabalho de pesquisa. desconfio que o número seja um caminho desnecessário e mesmo confuso, quando o assunto é ligado ao “espírito”.

se digo: “comi muitas bananas, por isso não vou almoçar com você”, o entendimento é imediato: comi o suficiente para me saciar, e portanto não vou almoçar com você. porém se digo: “comi cinco bananas, por isso não vou almoçar com você”, há interposição de uma etapa intelectual: “hmm… para ele, comer cinco bananas é muito, por isso não almoçará comigo.”


cultura e patrimônio

Setembro 25, 2009

Maria Angélica me diz que está a pesquisar um teatro e sua importância, sob o viés antropológico. Um teatro tombado, não por si (o prédio), mas pela dramaturgia: embora a questão seja complexa uma vez que o espaço físico é indissociável da tradição daquela companhia teatral. (Em outro idioma poderia-se diferenciar: the playing, not the theathre.)

Um prédio é tombado não apenas por sua arquitetura, mas também por sua história. O patrimônio arquitetônio nunca (ou muito raramente) constitui, por si só, um elemento para sobrecodificar algum espaço com essa categoria – de bem tombado. Um prédio é apenas um prédio, tijolos e cimento, enquanto não tem sua história feita e recontada. (Infelizmente alguns prédios sem história têm um passado inventado, mas esse é outro problema.)

Esta encruzilhada na pesquisa da colega só faz confirmar a impossibilidade de distinguir entre patrimônio imaterial e material. Em primeiro lugar é preciso questionar a posição de imaterialidades como uma sub-categoria de patrimônio: patrimônio intangível ou imaterial. Por que a precedência do patrimônio material, concreto, sólido? E até que ponto o patrimônio material é de fato desligado das manifestações imateriais? É claro que não há uma solução de continuidade. A noção de patrimônio imaterial parece ser mais de uso político (uma reação dos países meridionais perante a valorização constante dos monumentos e locais ao norte) do que de uso epistemológico.

Um bem patrimonial costuma servir como peça-curinga de referência cultural ampla. O teatro pesquisado por Maria Angélica não é, assim, apenas um monumento e um local, está para além disso, na situação social que o engendrou (e que ele engendrou), nas experiências que permitiu e na sua contribuição para a formação de personalidades.

(Discutir isso com a menina!)

Leituras iniciais:

  • GONCALVES, José Reginaldo Santos. Ressonância, materialidade e subjetividade: as culturas como patrimônios. Horiz. antropol. [online]. 2005, vol.11, n.23 [cited  2009-09-25], pp. 15-36 . Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832005000100002&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0104-7183.  doi: 10.1590/S0104-71832005000100002.
  • HAFSTEIN, Valdimar Tr..  The making of intangible cultural heritage: Tradition and authenticity, community and humanity. Diss. University of California, Berkeley, 2004. Dissertations & Theses: Full Text, ProQuest. Web. 25 Sep. 2009.

O Grupo

Setembro 21, 2009

Na última quarta-feira fui ao Grupo, prefiro não dizer qual, um grupo, enfim. Só vou, por enquanto, dizer que é um grupo com um viés de ajuda mútua e preparação para um evento. Muitas observações a serem feitas, muitas primeiras impressões que merecem pelo menos um registro – e o arrependimento de ter levado três dias para arranjar estas notas, já que a memória é péssima.

De todo jeito, impressões:

  1. A hierarquia é constantemente desafiada, porque o grupo reúne uma direção que não participa da condição que é objeto da reunião de todos os demais envolvidos. De fato, o grupo existe por aqueles que o frequentam, e não por aqueles que o organizam. Em algum momento me pareceu que, dentre os que frequentam-no há mais tempo, a consideração pelos “facilitadores” é baixa, havendo maior solidariedade com os demais membros. Como observação, vale dizer que a direção é voluntária, também; mas é de certo modo vista como acessória.
  2. Por outro lado, paradoxalmente, o discurso da direção é absorvido suavemente pelos frequentadores. Os mais velhos parecem defender os mesmos valores (bastante simplificados) que inspiram a direção. Este contraste torna possível questionar se não estariam em ação formas de micropolítica, tanto no sentido de controle quanto de rebelião. Pois se o discurso passa a fazer parte automática do repertório de indivíduos, ele pode ser apenas uma ferramenta para a coesão em torno de outras perspectivas. [ Noções que fluíram do ideário grupal para individual: “mais informação é importante e boa”, “o imprevisível não existe, e pode ser controlado”, “o tempo torna-nos mais bem preparados”. ]
  3. Os elementos externos percebem certa homogeneidade no grupo, e tentam manejar possíveis conflitos. O grupo não é bem aceito por alguns, mas é tolerado por outros, que em todo caso elaboram uma tipologia povoada de sinais distintivos e negociam a transição. [ “Vocês normalmente não querem coisas desse tipo, mas pelo menos dessa vez isso é necessário, entendam.” ]

Em todo caso, segunda-feira é dia de novas observações, nesse ofício que não pode dissociar-se de seu cotidiano


fortune cookie

Julho 23, 2009

É perigoso ter razão em assuntos sobre os quais as autoridades estabelecidas estão erradas.
– Voltaire


decisões

Dezembro 8, 2008

camila é uma moça que conheço e ao mesmo tempo não conheço, proveniente de lugar nenhum, com um jeito blasé e uma ignorância fundamental da maldade. olhos verdes, lindos olhos por cima de um nariz aquilino, uma boca muito pequena, tudo dentro da moldura de um rosto ligeiramente esticado.

é muito pequena, e muito vagarosa. sorri um riso cansado de ser feliz, sem de fato sê-lo.

e se começo a descrevê-la pelos aspectos físicos, não é por clichê, mas apenas porque camila nunca deixou impressões outras mais estáveis do que sua aparência.

com isso camila é uma não-mulher, para mim. ao mesmo tempo, percebo em sua incerteza os mais diversos abismos e as mais perigosas paixões. o que acontece é que, por uma porção de razões fundamentais, não sou eu quem vai descobrir em camila uma mulher.

e afinal, em que nós podemos nos fundamentar quando ousamor ter o direito de descobrir a mulher em uma transeunte que nos desperta interesse? o que move o sujeito a fazer dela mais do que uma imagem, a dar-lhe profundidade? além de quê, é claro, a descoberta envolve muitas e muitas responsabilidades, e angústias com relação a esta insuspeitada fonte de prazer e dor que é a mulher.

camila, jamais ousaria ferí-la, jamais ousaria curá-la. com relação a m., encontrei um ser muito bonito e que me fez sentir a insignificância de todos os meus juízos. um grande amigo perguntou, ainda ontem, o que vai acontecer; e a resposta é que eu nunca mais vou ter ilusões sobre aparências vãs.


filme presente: batalha de argel

Novembro 24, 2008

[ antes de mais nada, o comentário: por que será que a experiência do fascismo e do estado de exceção marcou tão profundamente os italianos, de modo que seus maiores pensadores e artistas não conseguem escapar de uma reflexão sobre o assunto? e por que não se observa o mesmo questionamento entre os alemães? (na alemanha, a experiência parece ter gerado outros traumas.) ]

adiante. batalha da argélia (la battaglia di algeri, 1966) é uma produção franco-italiana que, dentro do espírito neo-realista, passeia entre um documento e uma narrativa. até onde sei, o filme retrata situações reais, como o atentado no bairro argelino e a posterior resposta da frente de libertação nacional contra os colonialistas. algumas situações foram levemente modificadas, como o cerco ao líder da fnl (ali).

a fotografia é excepcional; entre outras, a cena do menino entregador de jornais, magnífica. algumas tomadas mostrando movimentos furtivos (como passagem de bilhetes, etc) revelam um estudo apurado de como enquadrar esse tipo de ação.

cabe criticar alguns pontos. obviamente que um filme sobre a argélia feito por um europeu, continua sendo um filme europeu sobre a argélia. os diálogos parecem seguir um padrão muito ocidental para soar verdadeiro (embora em alguns pontos perceba-se um esforço honesto dos atores); a representação do coronel francês não faz justiça ao cretinismo militar. o epílogo é desnecessário, quase um happy end que na prática não foi tão feliz, e também é cinematograficamente detestável. contudo…

como documento, batalha de argel é insuperável, pois demonstra de maneira bastante econômica as implicações de um estado de exceção permanente: se por um lado os problemas a curto prazo são resolvidos (como a situação dos atentados em argel, 1956), a longo prazo o governo calcado em medidas de exceção gera ódio e revolta, impossível de ser contida. nesse sentido, o epílogo, retratando a rebelião que levou à independência argelina, tem seu lugar como conclusão da prática de exceção a longo prazo — embora uma conclusão que, para todos os efeitos, poderia apenas ser implícita.


o controle das massas

Novembro 23, 2008

vamos admitir a hipótese mais plausível, desde o princípio, com relação ao controle social. que é, claro, a de que as massas controlam e deturpam terrivelmente os governos estabelecidos, tornando instável e impossível qualquer gestão política da famosa coisa pública.

para aqueles que se acostumaram ao povo coitadinho, ingênuo, que age como um zumbi em meio a tantos procedimentos diabólicos dos outros (seja lá quem for, que esteja fora do povo) no sentido de coagí-lo: para vocês, o povo não é mais do que uma ficção confortável. o povo real, as massas, agem de acordo com sentidos bastante específicos, e com plena noção do que implicam seus atos.

este povo utiliza-se de um esquema bastante curioso para manipular o estado: é seletivo. sua decisão sobre a relevância ou não de assuntos é soberana. os candidatos bem-sucedidos nas eleições perceberam isso faz tempo: não adianta prometer o que por princípio interessa ao povo, é preciso sair com um leque de promessas vagas, e concentrar-se no que apresentar maior popularidade. da mesma forma, o povo faz sua narrativa diária do mundo, que a imprensa custa a acompanhar (pois a imprensa jamais superou e dominou a narrativa, como pensaram alguns iludidos intelectuais).

um exemplo: alguém foi defenestrado em um canto qualquer da metrópole. no mesmo dia aconteceram dezenas de outros crimes cruéis, façanhas heróicas e decisões absurdas foram tomadas. mas o povo decidiu acompanhar este “caso”, e seletivamente (através do controle remoto, principalmente) só dá ouvidos a essa história. e reconta, faz boatos adquirirem o estatuto de verdade. não é raro que a própria instituição da justiça se curve ante à verdade popular, o que é uma faca de dois gumes, pois mostra a debilidade da justiça no momento mesmo em que ela se pretende soberana. e após alguns dias, sem nenhum motivo aparente, o povo desdenha a defenestração e parte para outra história.

será de fato que a imprensa é que empurra estas histórias? não acredito que tenha tal capacidade.

a arraia-miúda (o populacho) é terrivelmente controladora. só que é um controle inevitável, e assim se estabelece um tipo de sociedade altamente resistente a transformações. se algo impede hoje as revoluções, creio que é o controle popular, não imediatamente sobre si, mas sobre as formas de governo, que lhe ficam adequadas e não escapam por um minuto.


eminências, segundo tocqueville

Novembro 15, 2008

Se vem se estabelecer, perto do poder que dirige, um poder cuja autoridade moral é quase tão grande, pode-se acreditar que ele se limite por muito tempo a falar sem agira? Será que ele irá se deter sempre diante da consideração metafísica de que o objetivo das associações é dirigir as opiniões e não as forçar, aconselhar a lei, não fazê-la? (A democracia na América, livro I)


tocqueville – notas #8

Novembro 3, 2008

a democracia na américa/livro II, parte 4, cap. 5

talvez o capítulo mais genial do segundo livro, revela claramente as intenções de tocqueville em escrever um livro sobre a américa, mas que serve de alerta à europa. o título é: “que entre as nações européias de nossos dias o poder soberano aumenta conquanto os soberanos sejam menos estáveis”.

num exercício de previsão estranhamente preciso, tocqueville mostra aqui os primeiros passos em direção às sociedades totalitárias e espetáculares, que passam a concentrar no estado desde os capitais até os serviços religiosos. essa centralização caminha lado a lado com a democracia:

assim, pos, duas revoluções parecem se produzir em nossos dias, em sentido contrário: uma debilita continuamente o poder, a outra o fortalece sem cessar. [...] vê-se que estas duas revoluções estão intimamente ligadas uma à outra, que partem da mesma fonte e que, depois de terem seguido um curso diferente, levam enfim os homens ao mesmo lugar. (livro II, parte 4, cap. 5)

a preocupação de tocqueville parece ser esclarecer que a liberdade não é uma consequência necessária da igualdade; pelo contrário, muitas vezes os homens produzem uma demasiada centralização. o capítulo também discorre (tema raro em tocqueville) sobre a industrialização e suas consequências, industrialização que é apontada como um fator de centralização e de quebra da igualdade.

há inclusive, se se quiser extrapolar um pouco a leitura, uma antecipação da análise weberiana sobre a racionalização burocrática, que caminha lado a lado com a democratização. tocqueville fala sobre a “ciência administrativa” e como ela permite que o poder se concentre, pela hierarquia (domínio sobre funcionários) e pela amplitude de campos em que atua.