a abstração do número
na dúvida entre usar dados numéricos ou não em um trabalho de pesquisa. desconfio que o número seja um caminho desnecessário e mesmo confuso, quando o assunto é ligado ao “espírito”.
se digo: “comi muitas bananas, por isso não vou almoçar com você”, o entendimento é imediato: comi o suficiente para me saciar, e portanto não vou almoçar com você. porém se digo: “comi cinco bananas, por isso não vou almoçar com você”, há interposição de uma etapa intelectual: “hmm… para ele, comer cinco bananas é muito, por isso não almoçará comigo.”
cultura e patrimônio
Maria Angélica me diz que está a pesquisar um teatro e sua importância, sob o viés antropológico. Um teatro tombado, não por si (o prédio), mas pela dramaturgia: embora a questão seja complexa uma vez que o espaço físico é indissociável da tradição daquela companhia teatral. (Em outro idioma poderia-se diferenciar: the playing, not the theathre.)
Um prédio é tombado não apenas por sua arquitetura, mas também por sua história. O patrimônio arquitetônio nunca (ou muito raramente) constitui, por si só, um elemento para sobrecodificar algum espaço com essa categoria – de bem tombado. Um prédio é apenas um prédio, tijolos e cimento, enquanto não tem sua história feita e recontada. (Infelizmente alguns prédios sem história têm um passado inventado, mas esse é outro problema.)
Esta encruzilhada na pesquisa da colega só faz confirmar a impossibilidade de distinguir entre patrimônio imaterial e material. Em primeiro lugar é preciso questionar a posição de imaterialidades como uma sub-categoria de patrimônio: patrimônio intangível ou imaterial. Por que a precedência do patrimônio material, concreto, sólido? E até que ponto o patrimônio material é de fato desligado das manifestações imateriais? É claro que não há uma solução de continuidade. A noção de patrimônio imaterial parece ser mais de uso político (uma reação dos países meridionais perante a valorização constante dos monumentos e locais ao norte) do que de uso epistemológico.
Um bem patrimonial costuma servir como peça-curinga de referência cultural ampla. O teatro pesquisado por Maria Angélica não é, assim, apenas um monumento e um local, está para além disso, na situação social que o engendrou (e que ele engendrou), nas experiências que permitiu e na sua contribuição para a formação de personalidades.
(Discutir isso com a menina!)
Leituras iniciais:
- GONCALVES, José Reginaldo Santos. Ressonância, materialidade e subjetividade: as culturas como patrimônios. Horiz. antropol. [online]. 2005, vol.11, n.23 [cited 2009-09-25], pp. 15-36 . Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832005000100002&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0104-7183. doi: 10.1590/S0104-71832005000100002.
- HAFSTEIN, Valdimar Tr.. The making of intangible cultural heritage: Tradition and authenticity, community and humanity. Diss. University of California, Berkeley, 2004. Dissertations & Theses: Full Text, ProQuest. Web. 25 Sep. 2009.
O Grupo
Na última quarta-feira fui ao Grupo, prefiro não dizer qual, um grupo, enfim. Só vou, por enquanto, dizer que é um grupo com um viés de ajuda mútua e preparação para um evento. Muitas observações a serem feitas, muitas primeiras impressões que merecem pelo menos um registro – e o arrependimento de ter levado três dias para arranjar estas notas, já que a memória é péssima.
De todo jeito, impressões:
- A hierarquia é constantemente desafiada, porque o grupo reúne uma direção que não participa da condição que é objeto da reunião de todos os demais envolvidos. De fato, o grupo existe por aqueles que o frequentam, e não por aqueles que o organizam. Em algum momento me pareceu que, dentre os que frequentam-no há mais tempo, a consideração pelos “facilitadores” é baixa, havendo maior solidariedade com os demais membros. Como observação, vale dizer que a direção é voluntária, também; mas é de certo modo vista como acessória.
- Por outro lado, paradoxalmente, o discurso da direção é absorvido suavemente pelos frequentadores. Os mais velhos parecem defender os mesmos valores (bastante simplificados) que inspiram a direção. Este contraste torna possível questionar se não estariam em ação formas de micropolítica, tanto no sentido de controle quanto de rebelião. Pois se o discurso passa a fazer parte automática do repertório de indivíduos, ele pode ser apenas uma ferramenta para a coesão em torno de outras perspectivas. [ Noções que fluíram do ideário grupal para individual: “mais informação é importante e boa”, “o imprevisível não existe, e pode ser controlado”, “o tempo torna-nos mais bem preparados”. ]
- Os elementos externos percebem certa homogeneidade no grupo, e tentam manejar possíveis conflitos. O grupo não é bem aceito por alguns, mas é tolerado por outros, que em todo caso elaboram uma tipologia povoada de sinais distintivos e negociam a transição. [ “Vocês normalmente não querem coisas desse tipo, mas pelo menos dessa vez isso é necessário, entendam.” ]
Em todo caso, segunda-feira é dia de novas observações, nesse ofício que não pode dissociar-se de seu cotidiano
fortune cookie
É perigoso ter razão em assuntos sobre os quais as autoridades estabelecidas estão erradas.
– Voltaire
decisões
camila é uma moça que conheço e ao mesmo tempo não conheço, proveniente de lugar nenhum, com um jeito blasé e uma ignorância fundamental da maldade. olhos verdes, lindos olhos por cima de um nariz aquilino, uma boca muito pequena, tudo dentro da moldura de um rosto ligeiramente esticado.
é muito pequena, e muito vagarosa. sorri um riso cansado de ser feliz, sem de fato sê-lo.
e se começo a descrevê-la pelos aspectos físicos, não é por clichê, mas apenas porque camila nunca deixou impressões outras mais estáveis do que sua aparência.
com isso camila é uma não-mulher, para mim. ao mesmo tempo, percebo em sua incerteza os mais diversos abismos e as mais perigosas paixões. o que acontece é que, por uma porção de razões fundamentais, não sou eu quem vai descobrir em camila uma mulher.
e afinal, em que nós podemos nos fundamentar quando ousamor ter o direito de descobrir a mulher em uma transeunte que nos desperta interesse? o que move o sujeito a fazer dela mais do que uma imagem, a dar-lhe profundidade? além de quê, é claro, a descoberta envolve muitas e muitas responsabilidades, e angústias com relação a esta insuspeitada fonte de prazer e dor que é a mulher.
camila, jamais ousaria ferí-la, jamais ousaria curá-la. com relação a m., encontrei um ser muito bonito e que me fez sentir a insignificância de todos os meus juízos. um grande amigo perguntou, ainda ontem, o que vai acontecer; e a resposta é que eu nunca mais vou ter ilusões sobre aparências vãs.
filme presente: batalha de argel
[ antes de mais nada, o comentário: por que será que a experiência do fascismo e do estado de exceção marcou tão profundamente os italianos, de modo que seus maiores pensadores e artistas não conseguem escapar de uma reflexão sobre o assunto? e por que não se observa o mesmo questionamento entre os alemães? (na alemanha, a experiência parece ter gerado outros traumas.) ]
adiante. batalha da argélia (la battaglia di algeri, 1966) é uma produção franco-italiana que, dentro do espírito neo-realista, passeia entre um documento e uma narrativa. até onde sei, o filme retrata situações reais, como o atentado no bairro argelino e a posterior resposta da frente de libertação nacional contra os colonialistas. algumas situações foram levemente modificadas, como o cerco ao líder da fnl (ali).
a fotografia é excepcional; entre outras, a cena do menino entregador de jornais, magnífica. algumas tomadas mostrando movimentos furtivos (como passagem de bilhetes, etc) revelam um estudo apurado de como enquadrar esse tipo de ação.
cabe criticar alguns pontos. obviamente que um filme sobre a argélia feito por um europeu, continua sendo um filme europeu sobre a argélia. os diálogos parecem seguir um padrão muito ocidental para soar verdadeiro (embora em alguns pontos perceba-se um esforço honesto dos atores); a representação do coronel francês não faz justiça ao cretinismo militar. o epílogo é desnecessário, quase um happy end que na prática não foi tão feliz, e também é cinematograficamente detestável. contudo…
como documento, batalha de argel é insuperável, pois demonstra de maneira bastante econômica as implicações de um estado de exceção permanente: se por um lado os problemas a curto prazo são resolvidos (como a situação dos atentados em argel, 1956), a longo prazo o governo calcado em medidas de exceção gera ódio e revolta, impossível de ser contida. nesse sentido, o epílogo, retratando a rebelião que levou à independência argelina, tem seu lugar como conclusão da prática de exceção a longo prazo — embora uma conclusão que, para todos os efeitos, poderia apenas ser implícita.
o controle das massas
vamos admitir a hipótese mais plausível, desde o princípio, com relação ao controle social. que é, claro, a de que as massas controlam e deturpam terrivelmente os governos estabelecidos, tornando instável e impossível qualquer gestão política da famosa coisa pública.
para aqueles que se acostumaram ao povo coitadinho, ingênuo, que age como um zumbi em meio a tantos procedimentos diabólicos dos outros (seja lá quem for, que esteja fora do povo) no sentido de coagí-lo: para vocês, o povo não é mais do que uma ficção confortável. o povo real, as massas, agem de acordo com sentidos bastante específicos, e com plena noção do que implicam seus atos.
este povo utiliza-se de um esquema bastante curioso para manipular o estado: é seletivo. sua decisão sobre a relevância ou não de assuntos é soberana. os candidatos bem-sucedidos nas eleições perceberam isso faz tempo: não adianta prometer o que por princípio interessa ao povo, é preciso sair com um leque de promessas vagas, e concentrar-se no que apresentar maior popularidade. da mesma forma, o povo faz sua narrativa diária do mundo, que a imprensa custa a acompanhar (pois a imprensa jamais superou e dominou a narrativa, como pensaram alguns iludidos intelectuais).
um exemplo: alguém foi defenestrado em um canto qualquer da metrópole. no mesmo dia aconteceram dezenas de outros crimes cruéis, façanhas heróicas e decisões absurdas foram tomadas. mas o povo decidiu acompanhar este “caso”, e seletivamente (através do controle remoto, principalmente) só dá ouvidos a essa história. e reconta, faz boatos adquirirem o estatuto de verdade. não é raro que a própria instituição da justiça se curve ante à verdade popular, o que é uma faca de dois gumes, pois mostra a debilidade da justiça no momento mesmo em que ela se pretende soberana. e após alguns dias, sem nenhum motivo aparente, o povo desdenha a defenestração e parte para outra história.
será de fato que a imprensa é que empurra estas histórias? não acredito que tenha tal capacidade.
a arraia-miúda (o populacho) é terrivelmente controladora. só que é um controle inevitável, e assim se estabelece um tipo de sociedade altamente resistente a transformações. se algo impede hoje as revoluções, creio que é o controle popular, não imediatamente sobre si, mas sobre as formas de governo, que lhe ficam adequadas e não escapam por um minuto.
eminências, segundo tocqueville
Se vem se estabelecer, perto do poder que dirige, um poder cuja autoridade moral é quase tão grande, pode-se acreditar que ele se limite por muito tempo a falar sem agira? Será que ele irá se deter sempre diante da consideração metafísica de que o objetivo das associações é dirigir as opiniões e não as forçar, aconselhar a lei, não fazê-la? (A democracia na América, livro I)
tocqueville – notas #8
a democracia na américa/livro II, parte 4, cap. 5
talvez o capítulo mais genial do segundo livro, revela claramente as intenções de tocqueville em escrever um livro sobre a américa, mas que serve de alerta à europa. o título é: “que entre as nações européias de nossos dias o poder soberano aumenta conquanto os soberanos sejam menos estáveis”.
num exercício de previsão estranhamente preciso, tocqueville mostra aqui os primeiros passos em direção às sociedades totalitárias e espetáculares, que passam a concentrar no estado desde os capitais até os serviços religiosos. essa centralização caminha lado a lado com a democracia:
assim, pos, duas revoluções parecem se produzir em nossos dias, em sentido contrário: uma debilita continuamente o poder, a outra o fortalece sem cessar. [...] vê-se que estas duas revoluções estão intimamente ligadas uma à outra, que partem da mesma fonte e que, depois de terem seguido um curso diferente, levam enfim os homens ao mesmo lugar. (livro II, parte 4, cap. 5)
a preocupação de tocqueville parece ser esclarecer que a liberdade não é uma consequência necessária da igualdade; pelo contrário, muitas vezes os homens produzem uma demasiada centralização. o capítulo também discorre (tema raro em tocqueville) sobre a industrialização e suas consequências, industrialização que é apontada como um fator de centralização e de quebra da igualdade.
há inclusive, se se quiser extrapolar um pouco a leitura, uma antecipação da análise weberiana sobre a racionalização burocrática, que caminha lado a lado com a democratização. tocqueville fala sobre a “ciência administrativa” e como ela permite que o poder se concentre, pela hierarquia (domínio sobre funcionários) e pela amplitude de campos em que atua.
um intervalo para r. ela.
que alegria é encontrar em você, r., uma zona de indiferenciação entre a vulgaridade e a elegância; ou mais precisamente, uma elegante vulgaridade. você é ordinária — porque vulgaris, e você é também comum e usual, que são os outros sentidos precisos.
em meio a meia dúzia de amigas indecisas, destaca-se por dizer a agir exatamente na medida necessária. não se oferece, não coíbe nada. não usa artimanhas e artificialidades, é natural num sentido estranho de satisfazer-se em si mesma. caminha entre as meras mortais com uma auto-suficiência que não pode deixar de ser percebida como uma ofensa severa, mas impronunciável, e portanto, não passível de punição ou mesmo censura.
imprevisível, você engana sem qualquer intenção de iludir. seu sorriso é fechado, sua tristeza nunca me aparece. de repente, você se cala e esconde mil dimensões de sua face e em seu corpo — corpo sempre sereno e bem posto.
corpo próximo e distante, você me desnorteou e me fascina de um modo muito mau, cruel, sublime.
livros em áudio
recentemente decretei uma greve de leitura, por uma semana, em função de certo cansaço com o decifrar de letras em edições mal-feitas de obras importantes. como a função social me impede de vadiar uma semana, e como o vídeo e a televisão se esgotam rapidamente, decidi procurar uns livros em áudio, para ouvir em um player portátil enquanto durava a greve.
são muitas as opções para quem pode pagar; para quem recorre a obras no domínio público, já existem gravações em grande quantidade, e num momento de crescimento acelerado. o projeto librivox oferece uma coleção de gravações feitas a partir do acervo do projeto gutenberg, que por sua vez também disponibiliza de volta as gravações do librivox. são livros em inglês, em sua maioria, mas já existem (no momento em que escrevo) 72 áudios em francês, pouco mais de uma dezena em espanhol e 4 livros ou coletâneas em português.
a fundação dorina nowill tem um acervo enorme de áudios disponíveis mediante pagamento, incluindo vários clássicos da filosofia e ciências humanas. uma pequena parte das gravações, peças de literatura brasileira, está disponível através de um convênio em um projeto da usp, a biblioteca virtual (infelizmente o servidor deste site é o pior que já encontrei em minha vida, e as chances de que o serviço esteja offline são 9 em 10; espero a oportunidade de encontrar tudo online qualquer hora para fazer uma mirror copy).
afinal todos sabem como é a usp… [ imagem não é nada, sede é tudo. ]
portugal também tem um projeto de livros em áudio, através da universidade da beira interior. é a biblioteca on-line áudio de literatura, mantida pelo laboratório de comunicação e conteúdos on-line. boas obras de eça queirós, almeida garret, camilo castelo branco (faltou “a brasileira dos prazins”), etc.
para quem pode pagar há o ótimo site da harper audio, que publica de paulo coelho (em inglês, que é pior ainda) a ray bradbury. o catálogo é um pouco confuso, mas dá pra se achar.
e por fim, para quem é mais hardcore, existem dois projetos bem legais de sintetizadores de voz. um é o festival speech synthesis, que possui arquivos de síntese mais bem acabados para o inglês, improvisações em outras línguas e nada em português — ou seja, não dá pra sintetizar textos que não sejam em inglês. o outro projeto é o mbrola, que não é tão conhecido quanto o festival, mas possui um maior leque de opções em idiomas: há uma voz sintética para o português que quebra um galho. (infelizmente o mbrola não é livre, mas é gratuito.)
eleições
terminou hoje o processo de eleições municipais de 2008, com o segundo turno em algumas cidades brasileiras de médio e grande porte. de certa forma a eleição continua sendo uma paródia da política; mas a eleição municipal acaba sendo aquela de maior impacto sobre a conduta dos eleitos, aquela no qual fica patente a confiança depositada pelo eleitor (uma confiança perigosa demais, diga-se).
muitos prefeitos se reelegeram — como o prefeito de campinas, cidade onde a foto ao lado foi tirada. campinas avançou bastante nos últimos quatro anos, para citar um dos slogans da campanha do prefeito. entre as opções apresentadas, creio que a reeleição seria a menos problemática.
haviam muitos candidatos, quase nenhum deles com propostas políticas reais. o segundo colocado, um tucano, pareceu até bem intencionado, mas sem o amadurecimento para administrar uma metrópole do interior.
o mesmo caso é são paulo: mesmo os candidatos que ficaram no primeiro turno eram ou aventureiros, ou não perderam o momentum que um dia tiveram. a candidata que foi ao segundo turno usou demais o passado de sua administração, sem perceber que toda conjuntura modificou-se. o prefeito atual, reeleito, é um técnico extremamente adaptado às circunstâncias — o que nenhum de seus adversários parecia ser.
no rio de janeiro, a vitória foi também de um candidato por demais genérico, político-técnico, contra um rebelde envergonhado. pelo menos não foi uma reeleição. mas daqui a 4 anos, tudo estará a seu favor. está parecendo fácil demais esticar 4 para 8…
hg520a :: 23/10/2008
- política -> biopolítica: essa passagem acaba no domínio total (que é então legitimado e tornado necessário, pela biopolítica mesmo)
- foucault: todos se tornam fontes de irradiação de poder (será?)
sagrado enrolador
um conto de tolstoi: “the coffe-house at surat”. está disponível em inglês em livro hospedado no gutenberg; versão em áudio no librivox). não achei versão em português. este conto precisa ser traduzido, e talvez eu o faça em breve.
é uma pequena narrativa que se passa na índia, quase que um conto de fadas. é todo construído como uma fabulação de moral clara, um projeto de crítica ao egoísmo e egocentrismo: vários homens discutem religião (dentro de uma coffe-house, após alguns goles de ópio). cada qual quer garantir a supremacia de sua crença sobre qualquer outra; até que consultam um chinês confucionista, que mostra ser mais adequado não partir de preconceitos para alcançar a sabedoria do divino.
o chinês usa de uma metáfora: depois de ouvir cada um dos presentes engrandecer sua própria religião às expensas de diminuir as outras, fechando-se em contextos impenetráveis de verdade religiosa, o chinês declama uma longa história sobre homens que explicavam o funcionamento do sol, cada qual rejeitando também qualquer explicação de outrem. há também um cego que nega de modo radical a própria existência do sol; homens que definem o sol em relação a seus conhecimentos e suas preferências pessoais.
a estratégia de tolstoi não é original, mas bastante difícil de render bom resultado: insere na própria narrativa uma maquete de si mesma… o projeto do chinês é o mesmo de tolstoi — o chinês não é apenas a voz de tolstoi na história, ele é o espírito, uma cópia perfeita.
“Therefore, let him who sees the sun’s whole light filling the world,
refrain from blaming or despising the superstitious man, who in his own
idol sees one ray of that same light. Let him not despise even the
unbeliever who is blind and cannot see the sun at all.”
a história poderia ser contada apenas uma única vez, e o conto poderia ser interrompido com a “moral da história” logo após a primeira discussão (aquela dos homens na coffe-house). mas seria por demais bruto. o autor então duplica a primeira parte do conto, com uma pequena variação (uma transformação perspectiva) para enunciar pelo próprio personagem a “moral da história”, moral esta que passa a ser mais crível, então.
é caminho enrolado, mas que só enroladores geniais conseguem percorrer.
amigos enlouquecendo
de repente um sujeito a quem você conheço já faz tempo aparece com uma idéia completamente inusitada, daquelas típicas de napoleão moderno. pinta toda sua alucinação como se fosse a consequência mais perfeita dos esforços de raciocínio humano, a tão esperada resposta para questões fundamentais — “para que serve a vida?”, “que fazer?”, etc.
aconteceu comigo recentemente, duas vezes. para evitar constrangimentos, não vou mencionar nada relativo a estes dois casos. ouvi muitos castelos de areia, que ainda não se desmancharam — e o que pode ser mais cruel nas paranóias contemporâneas é que, graças à tecnologia e a algumas recursos de informação (não só externos, como também internos, a própria técnica de pensamento), estes castelos podem ser mantidos por um período muito longo.
e o que se pode fazer numa situação destas, ainda mais quando a loucura lhe foi confiada porque você, na qualidade de pessoa sábia e articulada, foi escolhido como alguém que entenderia o assunto? fui objeto da confiança de duas pessoas, que francamente me parecem estar com idéias muito erradas, no mínimo com uma percepção distorcida dos fatos básicos da vida e convivência social. não posso fazer nada com esta informação e reflexão; não posso também censurar expressamente a pessoa, porque a idéia já se tornou coerente e central para ela.
